
O autoconhecimento nos revela que embora sejamos únicos em termos de singularidade – forjada por experiências próprias -, definitivamente não temos como nos isolar do Todo imanente, que a tudo abarca e penetra.
Perceber a interconectividade intrínseca entre tudo o que existe abre uma ampla perspectiva para transitarmos com consciência pelo vasto Continente das Relações.
Percebe-se, então, que tudo evolui em um fluxo não linear, atravessado por ciclos — maiores ou menores — como os dias que sucedem as noites, as estações que retornam em seus próprios ritmos, ou as constelações, repletas de estrelas que nascem em pontos remotos do universo, brilham por milhões de anos e se apagam, apenas para reacender em outras regiões do céu. Assim também são as relações: nascem, amadurecem, transformam-se e chegam ao fim — apenas para renascer, silenciosamente, sob novas formas.
Tudo o que começa, um dia se transforma — e todo começo é, em si, o desdobramento de um ciclo que chegou ao fim. Todo encontro carrega uma semente de aprendizado e crescimento. Resistir ao fluxo natural das relações nos conduz ao sofrimento. Mas ao reconhecer que cada ciclo tem sua própria dinâmica e propósito, tornamo-nos mais capazes de avançar com a vida, sem nos apegar às formas efêmeras que surgem e desaparecem na esteira da criação. Assim, fluímos com sabedoria. A dor nasce do apego; a liberdade, da percepção serena dos tempos de semear, cultivar, colher — e deixar ir.
No Continente das Relações, os ciclos naturais carregam características intrínsecas que, quando aprendemos a decifrar, revelam condições favoráveis ao desenvolvimento da consciência — e, por extensão, das formas que se manifestam nas diversas esferas de criação e responsabilidade que a vida nos confia. Para isso, é preciso dissolver em nós os mecanismos de resistência que dificultam a finalização de experiências que já não servem ao crescimento. Ao mesmo tempo, torna-se essencial cultivar o discernimento que nos permite reconhecer o potencial do ciclo seguinte — e a vontade necessária para deslocar nossa atenção, com inteireza, à nova fase que se anuncia.
A vida na Terra nos ensina sobre esses ciclos: o que hoje é solo fértil já foi um deserto, e o que agora floresce, um dia se tornará semente novamente. O mesmo ocorre com nossas conexões. Se soubermos honrar cada fase, encontraremos harmonia nos movimentos da vida. Os ciclos não são círculos fechados ou repetições de experiências, mas movimentos espiralados que trazem novas oportunidades e novos patamares de evolução.
Cuida para não deter-te em demasia por autoencantamento no estágio da florescência. Lembra a fábula daquele que foi prisioneiro da própria imagem. Recorda-te que a vida se manifesta em ciclos. Abre caminho para a frutificação. Mas lembra-te: Se te precipitares na colheita os frutos amargos poderão conter sementes estéreis. Tudo tem seu tempo. Os ritmos se alternam. Quem cuida do autocultivo floresce e dá doces frutos. Produz sementes que germinarão na eternidade até se transformarem na Árvore da Vida.
Ensaios Sobre o Continente das Relações – da Trilogia Cartas de Benigna | Volume II
Gilmar Gonzaga
Escritor, geográfo, bioeticista
Diretor da Sacramente Desenvolvimento Humano
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